Reparar que um lado do escroto do seu filho está maior do que o outro é um motivo frequente de consulta de cirurgia pediátrica e, na maioria das vezes, a explicação é simples. Chama-se hidrocelo: uma acumulação de líquido à volta do testículo. Pode surgir de um lado ou de ambos.
O que mais preocupa os pais não é o nome, mas o que acontece a seguir. Este artigo cobre o essencial: como reconhecer, o que distingue os diferentes tipos, quando basta o exame físico, quando a vigilância é a abordagem certa e quando é preciso tratar.
O que é, afinal, um hidrocelo
Durante a gravidez, os testículos descem do abdómen até ao escroto através de um canal chamado processo vaginal. Normalmente este canal fecha antes do nascimento ou pouco depois.
Quando não fecha, ou quando fica líquido retido pelo caminho, forma-se um hidrocelo. O resultado é um conjunto de situações que parecem idênticas por fora, mas que não são acompanhadas nem tratadas da mesma forma.
Quando o canal se mantém aberto, pode deixar passar mais do que líquido a partir do abdómen. É exatamente por isso que um hidrocelo comunicante e uma hérnia inguinal se confundem com tanta facilidade.
Por fora, os dois são iguais, e é por isso que o exame se concentra no comportamento da tumefação, e não apenas no seu tamanho.
Três situações diferentes, não duas
É aqui que a precisão importa, porque a distinção condiciona tudo o que vem a seguir.
Hidrocelo comunicante
Varia ao longo do diaO canal manteve-se aberto. O líquido do abdómen desce e envolve o testículo, o que faz com que o volume mude ao longo do dia: costuma ser menor logo de manhã e maior quando a criança esteve de pé, a chorar, a correr ou a fazer força.
Essa variação é o sinal mais característico e o que merece mais atenção, porque o mesmo canal aberto pode deixar passar mais do que líquido.
Hidrocelo congénito não comunicante
EstávelO canal fechou, mas ficou líquido retido à volta do testículo. É muito frequente em recém-nascidos e lactentes.
Aqui a tumefação é estável: não aumenta ao fim do dia nem com o esforço. O organismo reabsorve gradualmente o líquido e a maioria destes casos resolve-se sozinha durante o primeiro ou segundo ano de vida.
Hidrocelo secundário ou adquirido
Aparece mais tardeSurge mais tarde, numa criança que antes não tinha qualquer tumefação, como resposta a um traumatismo, inflamação ou infeção. Menos frequentemente, pode estar associado a uma lesão ou tumor do testículo.
Neste caso a ordem inverte-se: identifica-se e trata-se primeiro a causa, e só depois se considera o hidrocelo em si.
Quando basta o exame físico e quando é preciso uma ecografia
O exame clínico avalia o tamanho, a consistência, se a tumefação varia ao longo do dia e, sobretudo, o próprio testículo. Um sinal clássico é a transiluminação: uma luz encostada ao escroto atravessa o líquido, o que não acontece com outras causas de tumefação.
O exame físico costuma ser suficiente quando
- ✓A tumefação é lisa, indolor e não cresce depressa
- ✓O testículo é palpável e pode ser examinado
- ✓Não há dúvidas quanto ao diagnóstico
- ✓O testículo não é palpável
- ✓Há dor, endurecimento ou crescimento rápido
- ✓A tumefação surge numa criança mais velha
- ✓Houve um traumatismo ou se suspeita de uma causa secundária
A regra útil é esta: o aspeto, por si só, não confirma a causa. Se houver qualquer dúvida entre hidrocelo e hérnia inguinal, a avaliação não deve ser adiada.
Vigiar, investigar ou tratar?
A decisão depende muito mais da idade, da forma como a tumefação evolui e da causa subjacente do que do tamanho isoladamente.
Num lactente com hidrocelo não comunicante, a vigilância é a abordagem habitual e segura. A maioria resolve-se sozinha entre os 12 e os 24 meses, sem qualquer intervenção.
A cirurgia é considerada se
- ✓O hidrocelo persiste para além do período esperado
- ✓Cresce ou causa desconforto
- ✓Há qualquer suspeita de hérnia associada ou de problema no testículo
- ✓O tamanho varia claramente ao longo do dia, sugerindo um canal aberto
No hidrocelo secundário, investiga-se e trata-se a causa. O hidrocelo pode diminuir à medida que o problema de base melhora, pode ser vigiado durante alguns meses quando é seguro fazê-lo, ou pode ser operado se persistir, crescer ou causar sintomas.
Um hidrocelo simples e indolor habitualmente não prejudica o testículo.
Qualquer urgência decorre da incerteza do diagnóstico, não do líquido em si.
Se for preciso operar
A técnica depende de existir ou não comunicação com o abdómen.
Na forma comunicante, a cirurgia é feita sob anestesia geral através de uma pequena incisão na virilha. Fecha-se a comunicação e drena-se o líquido. É a mesma abordagem usada na hérnia inguinal.
No hidrocelo secundário, trata-se primeiro a causa. Se o próprio hidrocelo precisar de tratamento, a abordagem é habitualmente pelo escroto e adaptada a cada caso.
Ao contrário do que acontece nos adultos, drenar o líquido com uma agulha não é uma opção nas crianças.
O líquido volta simplesmente a acumular-se enquanto o canal se mantiver aberto, e o procedimento acarreta um risco desnecessário.
Tempos aproximados para uma correção simples de um só lado
São valores indicativos. O tempo total na clínica é superior à duração da operação, e algum inchaço ou hematoma nos primeiros dias é esperado. Siga sempre as indicações da equipa que acompanha o seu filho.
Sinais que exigem avaliação urgente
Um hidrocelo simples é habitualmente indolor. Dor súbita ou uma alteração rápida não são compatíveis com um hidrocelo simples e exigem avaliação médica urgente para excluir outras causas, em particular a torção testicular, uma emergência com uma janela curta de tratamento.
Procure avaliação urgente se houver
- !Dor súbita e intensa no escroto ou na virilha
- !Dor acompanhada de náuseas ou vómitos
- !Tumefação rápida, dura, vermelha ou muito dolorosa ao toque
- !Febre, mal-estar ou inchaço significativo após um traumatismo
- !Um volume na virilha que não desaparece, com vómitos ou irritabilidade (pode indicar uma hérnia encarcerada)
Contacte a equipa se surgir febre, dor crescente, vermelhidão a alastrar, calor, pus, hemorragia persistente ou dificuldade em urinar.
Confirmar o tipo é o que importa
Se notar uma tumefação persistente no escroto do seu filho, marque uma avaliação. Na grande maioria dos casos trata-se de uma situação benigna, que ou se resolve sozinha ou é corrigida com uma operação simples e uma recuperação rápida.
O que importa é confirmar de que tipo se trata, e isso não se consegue apenas a olho.
Marcar consulta
A consulta de cirurgia pediátrica avalia a tumefação, o testículo e a necessidade de exames adicionais, e define a abordagem mais adequada para o seu filho.
Texto informativo. Não substitui avaliação médica individual.
- European Association of Urology — Paediatric Urology Guidelines, capítulo Hydrocele: uroweb.org/guidelines/paediatric-urology/chapter/hydrocele
- European Association of Urology — Paediatric Urology Guidelines, capítulo Acute Scrotum: uroweb.org/guidelines/paediatric-urology/chapter/acute-scrotum
- Cambridge University Hospitals NHS — Hydrocele in boys: cuh.nhs.uk/patient-information/hydrocele_in_boys
- Great Ormond Street Hospital NHS — Inguinal hernias and hydroceles: gosh.nhs.uk/conditions-and-treatments/conditions-we-treat/inguinal-hernias-and-hydroceles