

Nem todo o prepúcio que não retrai é um problema, e nem todos os casos que são um problema precisam de cirurgia. Esta é provavelmente a maior fonte de ansiedade desnecessária nas consultas de cirurgia pediátrica.
Muitos pais chegam à consulta convencidos de que o filho tem fimose e vai ter de ser operado. Na maioria das vezes, o que existe é um prepúcio que ainda não completou o seu desenvolvimento normal. Noutras, há de facto uma alteração que merece tratamento, mas esse tratamento nem sempre é uma cirurgia.
Este artigo percorre o essencial: o que é normal em cada idade, que sinais justificam uma avaliação, que opções existem antes de operar e, quando a cirurgia é indicada, o que esperar da recuperação.
O que é normal (e costuma surpreender os pais)
À nascença, o prepúcio está naturalmente aderente à glande. Não se trata de uma anomalia: é a forma como o pénis se desenvolve. Essas aderências vão-se soltando espontaneamente ao longo dos anos, sem qualquer intervenção.
A progressão habitual é esta: à nascença, a grande maioria dos meninos não tem prepúcio retrátil; por volta dos 3 anos, já a maioria consegue retrair; e na adolescência a situação está resolvida em praticamente todos. Um prepúcio que não retrai aos 4 anos não é, por si só, motivo para operar. É apenas um prepúcio que ainda não chegou lá.
A isto chama-se fimose fisiológica, a que faz parte do desenvolvimento. É diferente da fimose patológica, em que existe uma cicatriz verdadeira a apertar o prepúcio, e essa sim exige tratamento.
Duas situações que assustam e costumam ser normais
O prepúcio enche ao urinar. É frequente e, isoladamente, não significa obstrução. Se a criança urina sem dor, com jato normal e esvazia bem, esse balonamento raramente tem significado clínico.
Pequenos caroços brancos por baixo da pele. São acumulações de esmegma, resultantes da separação natural das aderências. São muitas vezes confundidos com pus ou com um quisto. Não são infeção, não doem e saem sozinhos. Não devem ser espremidos nem removidos.
Não force. Puxar o prepúcio para trás à força provoca dor, pequenas fissuras e, com a repetição, cicatrizes.
O paradoxo é cruel: forçar na tentativa de «resolver» a fimose é uma das formas mais comuns de transformar uma fimose fisiológica, que se resolveria sozinha, numa fimose patológica, que já precisa de tratamento.
A higiene faz-se por fora, com água, sem retração forçada. O prepúcio retrai quando estiver pronto.
Sinais que merecem avaliação médica
Há situações em que a avaliação não deve ser adiada. Peça uma consulta se existir:
Dor ou dificuldade ao urinar
MicçãoJato urinário muito fino ou com esforço visível
MicçãoInflamações ou infeções repetidas (balanites)
InfeçãoFissuras ou sangramento na abertura do prepúcio
PeleAnel esbranquiçado e endurecido na ponta
CicatrizPode corresponder a líquen escleroso, uma inflamação crónica da pele que forma cicatriz verdadeira e que, ao contrário das restantes situações, praticamente não responde a tratamento com creme. É a indicação mais clara para circuncisão.
O prepúcio antes retraía e deixou de retrair
RegressãoNunca é evolução normal. O desenvolvimento só anda num sentido, por isso um retrocesso indica sempre que algo se passou entre as duas alturas.
O exame médico distingue o desenvolvimento normal de uma fimose patológica. É essa distinção, e não a idade da criança, que decide o que fazer a seguir.
Nem sempre é preciso operar
A idade, os sintomas e o exame da criança orientam a decisão. Na prática, há três caminhos possíveis.
Vigiar
O cenário mais frequenteQuando não há sintomas e o desenvolvimento é compatível com a idade. Não se faz nada além de higiene adequada e de não forçar.
Tratar
Creme corticoideCreme corticoide prescrito pelo médico, aplicado durante algumas semanas, associado a retrações suaves e nunca dolorosas. É eficaz na maioria dos casos de fimose sem cicatriz estabelecida e evita a cirurgia em muitas crianças.
Operar
Cicatriz ou sintomas persistentesSobretudo quando existe cicatriz verdadeira, líquen escleroso, inflamações recorrentes ou sintomas que persistem apesar do tratamento com creme.
Nem toda a cirurgia implica remover o prepúcio: em casos selecionados é possível uma plastia do prepúcio, que alarga o anel apertado preservando a pele.
Não serve para todas as situações, e não é opção quando há líquen escleroso, mas é uma conversa que vale a pena ter com o cirurgião.
Se a cirurgia for indicada
A circuncisão remove o prepúcio, incluindo a zona apertada ou cicatrizada. É geralmente realizada sob anestesia geral e demora, em média, 20 a 30 minutos. A alta é habitualmente no próprio dia.
O tempo total passado na clínica é bastante superior ao tempo da cirurgia, entre preparação, procedimento e recobro.
Aliviar os sintomas, permitir urinar sem dificuldade e reduzir novas inflamações relacionadas com a indicação clínica que motivou a cirurgia.
Recuperar não é um único prazo
Uma das dúvidas mais frequentes depois da cirurgia é «quando é que volta ao normal?». A resposta é que cada etapa regressa no seu tempo.
São tempos aproximados: variam com a idade, com a situação clínica e com a orientação do cirurgião. Algum inchaço e uma coloração arroxeada nos primeiros dias são esperados e não são sinal de complicação.
Quando procurar ajuda rapidamente
Procure avaliação urgente se
- !A criança não conseguir urinar
- !O prepúcio ficar preso para trás, com a glande a inchar e a doer
- !Depois da cirurgia: hemorragia persistente
- !Depois da cirurgia: febre ou mal-estar
- !Depois da cirurgia: inchaço crescente ou dor intensa
A segunda situação tem nome. Acontece quando o prepúcio é retraído e não volta à posição, formando um anel que aperta a glande e impede o retorno do sangue.
É uma urgência: quanto mais tempo passa, mais difícil se torna reduzir. É também mais uma razão para nunca deixar o prepúcio retraído depois da higiene ou de um exame.
Uma fase, não uma doença
Um prepúcio que não retrai numa criança pequena é, na esmagadora maioria dos casos, uma fase. O que muda a abordagem não é a idade nem o aspeto, mas a presença de sintomas, de infeções repetidas ou de cicatriz verdadeira.
Se tiver dúvidas, a avaliação é simples, não implica exames e evita duas coisas em partes iguais: operar quem não precisa e adiar o tratamento de quem precisa.
Marcar consulta
Se tem dúvidas sobre o prepúcio do seu filho, a consulta de cirurgia pediátrica avalia o desenvolvimento, os sintomas e a necessidade, ou não, de tratamento.
Texto informativo. Não substitui avaliação médica individual.


